Por que o maior mercado de FIV da América Latina ainda enfrenta um gargalo de formação?
O Brasil lidera o ranking da Red Latinoamericana de Reproducción Asistida (REDLARA), tem o maior número de clínicas de fertilidade da América Latina e figura entre os principais mercados globais de Reprodução Humana Assistida (RHA). Ainda assim, a formação específica na área segue ausente da grade obrigatória da residência em ginecologia e obstetrícia. Essa contradição — mercado em aceleração, formação insuficiente — define o momento que a medicina reprodutiva brasileira atravessa.
Um mercado em aceleração
O setor cresce cerca de 23% ao ano no Brasil e deve movimentar R$ 3 bilhões até 2026, segundo projeções da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA). No cenário global, o mercado de tecnologias de reprodução assistida estimado em US$ 42 bilhões em 2025 pode chegar a US$ 90 bilhões até 2034. Por trás dos números: adiamento da maternidade, aumento das taxas de infertilidade e difusão de tecnologias que tornam os tratamentos mais acessíveis. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que entre 10% e 15% dos casais em idade reprodutiva enfrentam alguma dificuldade para conceber, o que no Brasil representa milhões de potenciais pacientes.
Tecnologia que redefine a prática clínica
Inteligência artificial na embriologia. Em 2024, estudo publicado na Nature Medicine demonstrou que sistemas de IA selecionam embriões com qualidade equivalente à dos melhores embriologistas, dez vezes mais rápido. O profissional permanece central — a IA é ferramenta de suporte —, mas compreender esses laudos tornou-se competência básica do clínico.
PGT-A e vitrificação. O Teste Genético Pré-implantacional identifica aneuploidias e aumenta as taxas de sucesso em Fertilização In Vitro (FIV), especialmente em mulheres acima de 35 anos. Já a vitrificação de óvulos abriu uma nova frente de demanda: a preservação de fertilidade por escolha — profissional, oncológica ou pessoal. Para o ginecologista, são indicações clínicas que exigem domínio ativo, não apenas encaminhamento.
O ginecologista no centro da conversa
O paciente que chega ao consultório em 2026 já pesquisou. Conhece a diferença entre inseminação e FIV, pergunta sobre PGT-A, quer discutir opções antes de decidir. O ginecologista que não tem domínio técnico sobre RHA perde a condução da consulta — e, com ela, a confiança do paciente.
A residência em ginecologia e obstetrícia não inclui RHA de forma obrigatória. O médico que a conclui não está necessariamente preparado para atender com competência um casal que busca auxílio para conceber por métodos assistidos.
Avaliar fator masculino, interpretar espermograma, indicar estimulação ovariana, prevenir hiperestimulação, acompanhar gestação pós-RHA e dialogar com o laboratório de embriologia: são competências que precisam ser construídas por formação continuada específica.
A lacuna como oportunidade
Em um mercado que cresce 23% ao ano, a ausência de formação em RHA é também uma lacuna de posicionamento. O ginecologista especializado não precisa migrar de área para agregar valor: pode ampliar o escopo da prática atual, conduzir protocolos mais simples no próprio consultório e oferecer ao paciente um nível de orientação que antes não existia.
Clínicas em expansão precisam de ginecologistas que entendam de RHA. Centros hospitalares precisam de equipes treinadas. E pacientes em busca de uma primeira orientação precisam de um médico que conduza essa conversa com segurança — e não apenas encaminhe. O momento de investir nessa formação é agora.
Fontes
SBRA · REDLARA · FEBRASGO · OMS · Nature Medicine · Medicina S/A · Projeções ART global 2025–2034